Entrevista para a revista Médico Repórter: Principais avanços e dificuldades na área de reprodução humana

Dr. Sandro Esteves é urologista certificado pela Sociedade Brasileira de Urologia e membro titular de

diversas sociedades nacionais e internacionais, como a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e Associação Americana de Urologia (AUA). Participou do programa de Fellowship em Infertilidade Masculina e Andrologia na Cleveland Clinic Foundation, nos Estados Unidos (Ohio) e, durante a permanência no país, realizou estágios em hospitais de Ohio, Michigan e Texas.
 
 
Após essa experiência, no entanto, decidiu retornar ao Brasil, trazendo com ele todo o conhecimento
adquirido no exterior. Em 1997, o Dr. Sandro Esteves fundou na cidade de Campinas, em São Paulo, a clínica ANDROFERT, que foi pioneira no tratamento da infertilidade masculina no Brasil. Desde
então, ele passou a se dedicar exclusivamente à área de reprodução masculina. “Entre os meus interesses, destaco a microcirurgia reconstrutiva do trato reprodutor masculino, sendo um dos pioneiros nas áreas de criopreservação de espermatozoides, testes de função espermática, técnicas de fertilização in vitro e micromanipulação de gametas (ICSI)”, acrescenta.
 
 
Hoje, a ANDROFERT é referência nacional na área de infertilidade masculina. No Brasil, a clínica de reprodução humana foi pioneira em implantar o controle total da contaminação ambiental nos laboratórios nos moldes das “Salas Limpas”. Em 2006, foi considerada, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), “Clínica de Reprodução Humana Modelo do País”. Desde então, treina os técnicos da ANVISA para inspecionar e certificar os bancos de células e tecidos germinativos
conforme as leis vigentes no País. Em entrevista exclusiva à Médico Repórter, o médico fala sobre sua formação, sobre as principais pesquisas realizadas na área de reprodução humana e sobre o que podemos esperar de avanços nos próximos anos. Confira a seguir.
 

Quais foram as principais diferenças que o senhor pôde perceber em relação ao Brasil nesta área? Quais são nossos méritos e no que é preciso avançar?
 
 
Hoje, o Brasil está muito avançado na área de reprodução humana com centros de excelência comparáveis aos melhores centros internacionais. Muitos médicos e outros profissionais de saúde saíram do Brasil nos últimos anos, indo se especializar nos Estados Unidos e Europa, trazendo os principais avanços tecnológicos. Porém, ainda são “ilhas” de excelência num universo de uma assistência apenas regular no País. O acesso aos tratamentos de fertilidade no Brasil é muito limitado. Estima-se que apenas 1% da demanda seja atendida nos serviços de reprodução
humana. Em países como os Estados Unidos atendem-se 30% da demanda. Apesar disso, devem-se reconhecer algumas iniciativas para melhorar o acesso aos tratamentos na área de fertilidade como a realizada pelo Programa Acesso (programa de inclusão de casais inférteis que oferece 50% de desconto nos medicamentos e nos tratamentos de infertilidade). Em relação à infertilidade masculina, a situação é ainda mais crítica com pouquíssimos especialistas brasileiros nesta área. Apesar disso, trata-se de um grupo muito engajado e participativo. Muitos deles com expressão internacional.
 
 
Desde que começou a trabalhar na área de fertilidade, quais foram os principais avanços? Poderia traçar um histórico?
 
 
Houve um avanço muito grande na área de infertilidade masculina. Há poucos anos, por exemplo, um homem que não possuía espermatozoides na ejaculação era rotulado de estéril e jamais poderia ser pai biológico. Houve uma mudança dramática nos últimos 15 anos. Hoje em dia, graças aos avanços da ciência, menos de 1% dos homens não serão capazes de gerar filhos biológicos. Houve um avanço extraordinário na área de diagnóstico com os novos testes genéticos de biologia molecular,
na terapêutica com as técnicas modernas de fertilização in vitro associada à micromanipulação de gametas conhecida como ICSI (injeção intracitoplasmática do espermatozoide no óvulo), na microcirurgia para a reconstrução do trato reprodutor masculino e na obtenção de gametas do testículo dos homens com azoospermia não obstrutiva, que é a condição mais grave na infertilidade masculina.
 
 
O senhor poderia falar um pouco mais da metodologia utilizada e sobre os resultados obtidos na pesquisa apresentada no Congresso Americano de Medicina Reprodutiva, em 2009, em Atlanta (EUA)?
 
 
Apresentamos um estudo envolvendo as técnicas de reprodução assistida, em especial a fertilização in vitro associada à micromanipulação de gametas (ICSI) e à varicocele. Atualmente, a varicocele é a principal causa de infertilidade nos homens em idade reprodutiva. A doença consiste em varizes nas veias que circundam os testículos, ocasionando alterações na circulação e perfusão gonadal com consequente dano à produção e qualidade dos espermatozoides. Hoje, sabemos que a varicocele
altera o funcionamento dos testículos e que o tratamento realizado com cirurgia é a melhor opção. A microcirurgia melhora a qualidade seminal, diminui o estresse oxidativo no sêmen e aumenta
a capacidade antioxidante do sêmen. Também aumenta o percentual de espermatozoides 
apresentando um material genético intacto. O que ainda não se sabe é se a correção cirúrgica da varicocele pode melhorar os resultados das técnicas de fertilização in vitro, especialmente, a injeção intracitoplasmática (ICSI). O conceito hoje vigente é o de que não há necessidade de tratar a varicocele quando se indica a fertilização in vitro, porque o método é capaz de oferecer altas taxas de
sucesso independentemente da causa de infertilidade masculina.
 
 
A pesquisa envolveu 242 casais que enfrentavam problemas de infertilidade. Como foi?
 
 
Realizamos um estudo na ANDROFERT, avaliando um grupo de 242 casais cujo homem possuía varicocele clínica, e que foram encaminhados para o tratamento de reprodução assistida com a
ICSI. Os casais foram divididos em dois grupos: 80 homens foram submetidos à correção microcirúrgica da varicocele antes da ICSI, e 162 homens foram submetidos à ICSI com varicocele. No
grupo operado, comparou-se o resultado do espermograma antes e depois da cirurgia.
Entre os grupos, compararam-se os resultados da fertilização in vitro, as taxas de gravidez e as chances de aborto espontâneo. Os resultados revelaram que, no grupo operado, a concentração
de espermatozoides dobrou após a microcirurgia de varicocele, havendo uma diminuição nos defeitos apresentados pelos espermatozoides. As taxas de fertilização no laboratório foram significativamente
maiores quando se utilizavam os espermatozoides dos homens operados de varicocele (78% vs. 66%). As taxas de gestação com a técnica de ICSI foram significativamente superiores no grupo de indivíduos tratados da varicocele antes de submeterem-se à fertilização (60% versus 45% no grupo não tratado). Análise de regressão logística revelou que a chance de um casal obter a gravidez
com o tratamento de fertilização in vitro, associada à ICSI, aumenta 69% se a varicocele clínica for tratada antes, e as chances de ocorrer um aborto espontâneo são reduzidas em 2,3 vezes.
Isso acontece porque há uma melhora da qualidade geral do gameta masculino após a remoção da varicocele com consequente melhora do seu potencial fértil, sendo mais capaz de fertilizar o óvulo e
formar um embrião saudável.
 
 
Como foi a recepção da sua pesquisa no Congresso de Medicina Reprodutiva nos Estados Unidos?
 
 
A pesquisa foi muito bem recebida. Após a apresentação dos dados, recebi dois convites para escrever capítulos de livros nos Estados Unidos sobre varicocele e técnicas de fertilização in vitro.
 
 
Quais foram os principais tópicos abordados no congresso? Poderia falar um pouco sobre alguns?
 
 
O Congresso Americano de Medicina Reprodutiva é o maior do mundo, agregando cerca de 6 mil participantes. Existem diversas áreas de interesse. O que chamou a minha atenção foram os estudos sobre os efeitos nocivos dos fatores ambientais na fertilidade masculina, principalmente os da energia eletromagnética emitida pelo telefone celular, a obesidade e o consumo de alimentos industrializados contaminados com xenobióticos. Este ano, fui chefe de uma mesa de discussão sobre “novos conceitos em infertilidade masculina”, onde apresentei as principais novidades nesta área, incluindo os avanços no diagnóstico e tratamento da infertilidade masculina. Pela primeira
vez, um urologista brasileiro foi convidado para participar da programação científica oficial do congresso. Um orgulho para toda a classe urológica brasileira.
 
 
A ANDROFERT é hoje um centro de assistência, ensino e pesquisa nas áreas de infertilidade, andrologia e reprodução. Poderia descrever de que forma acontece o funcionamento dessas três áreas (assistência, ensino e pesquisa)? Quais são as principais ações que vêm sendo desenvolvidas em cada uma delas?
 
 
A ANDROFERT é uma clínica privada com atividade, primariamente, assistencial que desenvolve um programa de ensino e treinamento para médicos e outros profissionais da área de saúde
com interesse nas áreas de reprodução masculina, andrologia, microcirurgia e reprodução assistida. Na área de assistência contamos com uma equipe multidisciplinar composta por médicos
ginecologistas e urologistas, biólogos e vários profissionais de apoio. A clínica atende cerca de 1,2 mil casais por ano, com foco no diagnóstico, tratamento e orientação para casais em que o homem
possui problemas de fertilidade. A ANDROFERT conta com laboratório andrológico completo para a investigação de todas as causas de infertilidade masculina, serviço de banco de sêmen terapêutico, utilizado por homens que desejam preservar sua fertilidade. Além disso, realiza atendimento tanto para o homem quanto para a mulher por médicos especializados em reprodução, e oferece todos os tratamentos de reprodução assistida, desde os mais simples até as modernas técnicas de
fertilização in vitro. Na área de ensino, mais de 140 profissionais da área de saúde, vindos de todo o Brasil, realizaram estágios na instituição. Biólogos de todo o Brasil têm desenvolvido projetos de pesquisa sob nossa orientação. Oferecemos um programa de estágio para médicos e biólogos com interesse na área de reprodução masculina. As linhas de pesquisa em andamento na ANDROFERT incluem criopreservação de gametas masculinos, efeitos de subs-tâncias estimulantes sobre a qualidade dos espermatozoides, efeito da energia eletromagnética emitida pelo telefone celular sobre a fertilidade e técnicas de microcirurgia na azoospermia não obstrutiva.
 
 
De que forma ocorre o tratamento multidisciplinar? Existe alguma dificuldade na ação conjunta dos profissionais da equipe?
 
 
No começo tínhamos dificuldade, hoje isso não existe mais. Entendemos que a infertilidade conjugal tem origem multifatorial e o envolvimento de vários profissionais é imprescindível para o sucesso dos tratamentos. Os casais são avaliados pelo urologista e pelo ginecologista, que irão conjuntamente estabelecer o diagnóstico e propor o tratamento mais apropriado. Nessa fase, uma equipe
do serviço de saúde complementar nutricionista, psicóloga e acupunturista, auxilia os pacientes. Todos trabalham de forma integrada com o objetivo de melhorar a saúde do casal e restabelecer,
da melhor maneira possível, o equilíbrio físico e mental necessário para que as medidas terapêuticas façam o efeito desejado.
 
 
Existe algo que dificulte o trabalho nessa área? O Brasil possui todos os equipamentos necessários?
 
 
No nosso País, as dificuldades estão mais relacionadas ao acesso à saúde. Como mencionei anteriormente, temos “ilhas de excelência”, e nesses serviços existem todos os equipamentos necessários. Entretanto, ainda são poucos os casais que podem arcar com os custos dos tratamentos, pois muitos deles não são cobertos pelo sistema público ou privado de saúde. No Brasil, estima-se que existam cerca de 3 milhões de casais inférteis, o que representa cerca de 15%
da população na idade reprodutiva. O homem é total ou parcialmente responsável pelas dificuldades de concepção em aproximadamente 60% dos casos, visto que em cerca de 40% deles a causa da
infertilidade é unicamente masculina, e em 20% ambos os parceiros possuem alterações que impedem a gravidez. Estima-se que 200 mil casos novos de infertilidade conjugal surjam por ano
no Brasil. Aos 40 anos de idade, cerca de 20% dos homens ainda não são pais, e destes, cerca de 30% manifestam profunda tristeza pela impossibilidade de gerar os próprios filhos, com consequente
comprometimento na esfera social, profissional e familiar. Em vários países, programas de saúde voltados para os direitos sexuais e reprodutivos da população masculina têm sido criados. No Brasil, no âmbito do Sistema Único de Saúde, a Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana, por meio da Portaria nº 426 do Ministério da Saúde, foi instituída em 2005. Além disso,
existe a atuação da iniciativa privada com programas de inclusão para casais de menor renda com dificuldades para engravidar, como o “Programa Acesso”, hoje vigente em todo o Brasil.
 
 
Por fim, gostaria de saber o que podemos esperar de avanços nos próximos anos?
 
 
Eu espero a cura da infertilidade masculina. Não está longe o dia em que todos os homens que desejam ser pais realizarão este sonho. Existem pesquisas avançadas envolvendo medicamentos e
complexos vitamínicos, sobre as causas de infertilidade e de como identificar e minimizar os efeitos nocivos de diversos fatores gonadotóxicos, além das pesquisas também avançadas sobre o gameta
masculino artificial, criado a partir das células somáticas do homem, que sem dúvida alguma eliminará de vez os casos ainda existentes de esterilidade masculina absoluta. Entretanto, é muito
importante que a saúde do indivíduo não seja esquecida, e cabe ao médicoatuar de forma ética para utilizar todo o conhecimento científico sempre para o benefício do indivíduo num contexto mais amplo. É importante também que haja uma interface produtiva entre os setores diversos da sociedade para discutir o impacto dos avanços tecnológicos.
 
 
Fonte: Nina Rahe, Médico Repórter, N°104, Abril de 2010.

©Androfert - Centro de Referência em Reprodução Masculina - Todos os Direiros Reservados.
Av. Dr. Heitor Penteado , 1464 - Taquaral - - CEP 13075-460 - Campinas - São Paulo - Brasil - Fone: 55(19)3295-8877 • Fax: 55(19) 3294-6992

Política de Privacidade | Mapa do Site

Desenvolvido por W2F Publicidade